Precisei fugir para um lugar. Mesmo chovendo muito forte decidi tirar o pijama, sair da cama e me vestir, pois já havia traçado o plano horas antes e estava tudo tão decidido, que por mim, tudo já estava até mais do que feito. E eu não fiz é nada. Caminhei por entre prateleiras empoeiradas, fazendo um eterno zig-zag, sem nem saber o que havia ido procurar ao certo. Claro, fui emprestar alguns livros, mas nem com a ajuda de uma bibliotecária que sempre me atende com ternura achei o que eu realmente queria. Na verdade, eu mal sabia o que eu queria indo lá. 17h57 e uma ligação: - "Filha, volta para a casa, está chovendo muito, por favor." Eu não conseguia nem responder nada, a voz não saía nem se eu fizesse o maior esforço do mundo. Apenas desliguei.Ainda não estava pronta para voltar para casa. Então, esperei do lado de fora da biblioteca pública, debaixo da marquise e fiquei observando o movimento apressado dos carros e das pessoas, indo e vindo, e de alguma forma muito estranha, aquilo ia me angustiando a cada segundo que se passava. Dez, vinte, trinta minutos e eu ainda parada, com o olhar fixo para exatamente nada. O porteiro da biblioteca viu que eu ainda estava ali encostada com cara de paisagem desde sabe-se lá que horas e fez sinal de tchau. A chuva só aumentava, a escuridão dava o ar de sua graciosidade, a biblioteca já ia fechando e já que em algum momento tudo iria ficar bem, decidi terminar de piorar ali pela rua. E o pior de tudo, é depois dessa fossa eterna ter que entrar em um ônibus de volta para casa toda encharcada e receber olhares de desaprovação. Sentei-me mais ao fundo e uma música triste de uma das minhas bandas preferidas que por acaso me lembra alguém que já foi minha pessoa preferida começou a tocar através dos fones de ouvido. "Oh, meu amor/ por favor, não chore." Impossível segurar o choro com um refrão desse tipo.
Cheguei em casa. Aquele tipico comportamento de quem quer fugir de olhares e palavras de familiares, correndo direto para o quarto e tentando se esconder de algo que está tão na cara. Apesar de todo o drama passado durante a tarde, no momento em que entrei no meu quarto e deitei a cabeça no travesseiro, em poucos minutos meus pais e meu irmão vieram ver o que havia de errado comigo, me dizendo palavras amigas e tudo aquilo que a família tem que fazer a favor de um sorriso, ao invés das lágrimas salgadas. Aprendi antes tarde, do que nunca, que o tesouro, está em casa e por isso, apenas por isso, eu voltei.
"Hoje eu sei que quem me deu a idéia de uma nova consciência e juventude está em casa guardado por Deus, contando vil metal." (Elis Regina)
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